Um levantamento realizado pelo Instituto Data Favela revelou que moradores de favelas e periferias movimentam mais de R$ 300 bilhões por ano em renda própria. O valor é maior que o Produto Interno Bruto (PIB) anual de 22 estados brasileiros.
A pesquisa, divulgada na última sexta-feira, 18 de julho, ouviu 16,5 mil moradores de comunidades em todo o Brasil. O resultado confirma que esses territórios são parte ativa da economia nacional, com poder de compra, planos de investimento e grande presença digital.

Segundo o estudo, o Brasil conta com 12,3 mil favelas, que abrigam cerca de 6,6 milhões de domicílios, o equivalente a 8% dos lares do país. No total, são mais de 17 milhões de pessoas, número próximo à população do estado do Rio de Janeiro e atrás apenas de São Paulo (45,9 milhões) e Minas Gerais (21,3 milhões).
“Estamos falando de um território que soma mais de R$ 300 bilhões em renda própria por ano. É mais do que o PIB anual de muitos estados. A favela não é carência, é mercado”, afirmou Renato Meirelles, fundador do Data Favela.
Consumo ativo e prioridades bem definidas nas favelas
O estudo também investigou os hábitos de consumo dessa população. Nos próximos seis meses, 70% dos moradores pretendem comprar roupas, 60% querem adquirir perfumes e 51% planejam comprar produtos de beleza, eletrodomésticos ou materiais de construção.
A educação também aparece como uma das prioridades: 43% desejam investir em cursos e 29% em idiomas. A região Norte lidera as intenções de compra em diversas categorias: roupas (77%), perfumes (67%), materiais de construção (59%) e eletrodomésticos (61%).
O interesse por aparência pessoal também é significativo. Segundo o levantamento, 77% dos entrevistados dizem se importar muito com sua imagem, 57% consideram cosméticos itens de primeira necessidade e 37% acreditam que uma boa aparência ajuda na conquista de oportunidades profissionais.
Além disso, 63% costumam buscar dicas e tutoriais de beleza nas redes sociais, enquanto 57% se inspiram em influenciadores com trajetórias parecidas às suas.
Para Meirelles, esses dados mostram uma população ativa e atenta ao consumo. “O desejo de consumo está vivo nas favelas e pulsa em todas as categorias, do vestuário à educação. Quem vive nesses territórios quer comprar, renovar a casa, se cuidar, investir no futuro”, afirmou.
Otimismo, esforço pessoal e desafios estruturais
O levantamento também apontou uma percepção positiva sobre o futuro. Nove em cada dez moradores acreditam que sua vida vai melhorar no próximo ano. Para 56% deles, o principal motor da mudança é o próprio esforço.
Além disso, 19% creditam o progresso à fé, religião ou igreja. Apenas 11% mencionaram o governo como agente de transformação. Outros apontaram família (7%), comunidade (3%) e, em menor número, amigos, empresas, sorte ou ninguém.
Comércio online e comportamento de compra
A pesquisa também mostrou que 6 em cada 10 moradores de favelas já compram em marketplaces como Shopee, Mercado Livre e Shein. No entanto, ainda enfrentam desafios logísticos: três em cada cinco já sofreram com atrasos na entrega, um em cada cinco não recebeu o produto por erro no endereço, 50% receberam mensagens falsas e um terço caiu em golpes digitais.
Mesmo assim, a compra online se tornou parte da rotina. Os moradores valorizam produtos com bom custo-benefício, mas sem abrir mão da qualidade. Para 83%, encontrar uma alternativa mais barata que entrega o mesmo desempenho que uma marca famosa é motivo de orgulho.
A marca ainda tem peso na decisão de compra, principalmente por representar confiança, menor risco e garantia de qualidade. A experiência de atendimento também é levada em consideração: 89% valorizam um bom atendimento, e 42% estariam dispostos a pagar mais por isso.
A sustentabilidade também entrou na pauta de consumo: 86% valorizam práticas sustentáveis, e 41% aceitariam pagar um valor maior por produtos que respeitam o meio ambiente.


