A população mais pobre continua enfrentando grandes dificuldades para ter acesso à creche no Brasil, mesmo com o aumento do número de matrículas nos últimos anos. Um estudo recente do Todos Pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C) e no Censo Escolar, revela que, entre 2016 e 2024, a desigualdade no atendimento infantil se ampliou.

Entre as crianças de famílias mais pobres, apenas 30,6% têm acesso, enquanto entre as mais ricas a taxa chega a 60%. Nos últimos nove anos, a diferença de atendimento entre os extremos de renda aumentou de 22 pontos percentuais para 29,4 pontos.
O estudo aponta que quase 2,3 milhões de crianças de até três anos estão fora da creche devido a dificuldades de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas. Embora a proporção de crianças que não frequentam por opção dos responsáveis seja parecida entre os diferentes grupos de renda, o problema maior é o acesso. Quanto menor for a renda da família, maior a chance de a criança não conseguir vaga mesmo quando os pais desejam matriculá-la.
O cenário é ainda mais preocupante entre bebês de até 1 ano, com apenas 18,6% atendidos em creches. Em 2024, aproximadamente 25% das crianças dessa faixa etária não frequentavam o serviço por barreiras de acesso, sendo que entre os mais pobres essa proporção chega a 34%. Esses dados mostram que, apesar de avanços, muitas crianças continuam privadas de um direito essencial para seu desenvolvimento inicial.
Diferenças entre creche e pré-escola
Na pré-escola, que atende crianças de 4 e 5 anos e é a primeira etapa obrigatória da educação básica, 94,6% dos pequenos estão matriculados. Apesar da alta cobertura, ainda havia mais de 329 mil crianças fora da escola em 2024. Entre as famílias mais pobres, a dificuldade de acesso é o principal motivo para a não frequência, enquanto entre as mais ricas a decisão dos responsáveis continua predominando.
Manoela Miranda, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, reforça a necessidade de políticas estruturantes para garantir equidade: “Ainda que haja avanços a serem reconhecidos, o ritmo de expansão do acesso à educação infantil segue abaixo do necessário.
Sem a adoção de políticas estruturantes para a expansão com qualidade e equidade, o Brasil continuará privando uma parcela significativa de suas crianças do direito à educação infantil e, portanto, ao pleno desenvolvimento em seus primeiros anos de vida. A garantia do direito à educação infantil de qualidade, com olhar atento para a redução das desigualdades, é indispensável.”
Desigualdades regionais
A análise do estudo também mostra grandes disparidades regionais no acesso à educação infantil. As regiões Norte e Nordeste concentram os indicadores mais críticos, tanto em creches quanto em Pré-escola.
Em 2024, São Paulo apresentou a maior taxa de atendimento em creches, com 56,8%, enquanto o Amapá registrou apenas 9,7%. Na Pré-escola, apenas o Piauí alcançou a universalização do atendimento, enquanto o Amapá teve 69,8% das crianças de 4 e 5 anos matriculadas.
Segundo Manoela Miranda, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, a expansão do acesso à educação infantil com foco na equidade deve ser uma prioridade nacional: “Isso exige ações coordenadas, com políticas indutoras robustas, financiamento adequado e fortalecimento do regime de colaboração entre União, estados e municípios.”
O estudo evidencia que, apesar de algum progresso nos últimos anos, milhões de crianças continuam sem acesso à educação infantil, e a pobreza ainda é o principal obstáculo. Garantir vagas suficientes e proximidade das unidades é essencial para que todas as crianças, independentemente da renda de suas famílias, possam frequentar a creche e iniciar sua trajetória educacional em igualdade de condições.
A pesquisa deixa claro que o Brasil precisa avançar de forma estruturada, com políticas públicas focadas em equidade, para que crianças pequenas não sejam privadas de oportunidades fundamentais para seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. A redução das desigualdades no acesso à educação infantil é considerada um passo crucial para formar cidadãos preparados e promover justiça social desde os primeiros anos de vida.