IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%
Ao vivo

“Career Shrekking”: por que jovens estão aceitando cargos abaixo de suas capacidades?

Por

·

O termo “career shrekking” deriva da ideia do ogro Shrek, significando a prática de aceitar cargos profissionais aquém do próprio potencial para evitar riscos emocionais, econômicos e reputacionais. A tendência se popularizou entre os jovens da Geração Z, preocupados com incertezas do mercado, medo da rejeição, da instabilidade ou do fracasso.

Para Müller Gomes, recrutador da consultoria Robert Half, o comportamento reflete uma busca por segurança em meio a um cenário de insegurança profissional. Já Marina Ferreira, sócia da Korn Ferry, afirma que muitos avaliam agora o impacto emocional de cada movimento profissional antes de arriscar uma transição. No “career shrekking”, a ambição não desaparece, mas fica em segundo plano diante do desejo de manter estabilidade.

Leia também: Skillcations: entenda o que é a nova tendência e por que ela muda a forma de tirar férias

A busca por segurança tem levado jovens a aceitar menos do que são capazes — um movimento que já preocupa especialistas | Foto: Reprodução/Canva

career
A busca por segurança tem levado jovens a aceitar menos do que são capazes — um movimento que já preocupa especialistas | Foto: Reprodução/Canva

Por que as pessoas adotam essa estratégia

Uma das principais razões para o career shrekking aparece justamente quando o profissional está desempregado. Segundo Gomes, aqueles que aguardam uma recolocação acabam aceitando qualquer oportunidade, mesmo que abaixo de suas qualificações, por insegurança e urgência financeira. A oferta de emprego se torna menos uma escolha por crescimento e mais uma salvação.

Outros entrevistados apontam que a baixa autoestima e o medo de falhar influenciam a decisão. Um estudo publicado na Journal of Personality and Social Psychology, concluiu que pessoas com menor tendência a assumir riscos preferem funções mais seguras, mesmo que isso signifique abrir mão do reconhecimento ou de promoções.

Esse comportamento pode gerar uma falsa sensação de controle: aceitando menos, o trabalhador evita enfrentar os desafios mais complexos e a exposição que vem com eles. No entanto, especialistas alertam que essa segurança aparente pode minar a motivação e afetar o desempenho a longo prazo.

As consequências para a carreira

Uma das consequências mais graves do career shrekking é o chamado rust-out, quando a pessoa se sente enferrujada por não usar plenamente seus talentos. Gomes afirma que, em poucos meses, profissionais podem se sentir desmotivados ao perceber que podem dar mais, mas escolheram a estabilidade.

Esse desengajamento também afeta a empresa. Ao subutilizar talento, a companhia deixa de aproveitar o investimento em capacitação e, muitas vezes, enfrenta rotatividade, porque o trabalhador acaba saindo. Para a empresa, a vantagem parece imediata, um colaborador “conformado”, mas o preço pode ser alto em inovação e resultado.

Além disso, alguns líderes reforçam esse comportamento. Ferreira alertou que gestores menos experientes podem favorecer profissionais que “obedecem” em vez de desafiar a equipe. Isso cria um problema: ninguém evolui, nem a pessoa, nem o time, nem a companhia.

Por que esse caminho é arriscado emocionalmente

Embora o career shrekking pareça proteger contra o risco de falhar, reforça inseguranças profundas. Ao escolher funções facilmente seguras, o profissional internaliza a ideia de que não merece desafios e deixa de se arriscar. Com isso, a construção de autoestima profissional fica comprometida.

Com o tempo, até pequenas mudanças na empresa, como uma reestruturação ou uma nova liderança, podem se tornar fonte de ansiedade, porque a pessoa se acostumou a depender de seu próprio controle sobre a “zona de segurança”.

Segundo Ferreira, é importante transformar esse comportamento. Ela defende que, em vez de aceitar apenas por segurança, os profissionais devem cultivar curiosidade, aprender a lidar com riscos e desenvolver autoconfiança para crescer mesmo diante da incerteza.

Alternativas ao “career shrekking”

Para quem se identifica com a tendência, especialistas recomendam algumas estratégias para reverter esse movimento:

  1. Buscar feedback constante sobre seu desempenho e suas competências.
  2. Conversar com mentores ou coaches para explorar trajetórias mais desafiadoras.
  3. Investir em desenvolvimento pessoal fora do trabalho formal, cursos, networking, projetos paralelos, para aumentar a segurança interna.
  4. Estabelecer metas profissionais de curto e médio prazo que envolvam crescimento, mesmo que gradual.
  5. Discutir com a empresa oportunidades de crescimento ou mobilidade interna para funções com mais desafio.

Essas ações podem reduzir o medo de dar um passo maior e permitir que a carreira evolua com equilíbrio entre segurança e realização.

*Entrevistas concedidas a Forbes.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.

Publicidade