IBOV 138.420 +0,82% USD/BRL 5,18 -0,34% EUR/BRL 5,62 +0,11% Bitcoin US$ 61.450 -0,38% Ethereum US$ 1.627 -0,67% Selic 9,75% estável IPCA 12m 3,84% -0,12pp Petróleo Brent US$ 82,40 +1,21%

Brasil bate recorde de denúncias de trabalho escravo em 2025

Por

·

O Brasil encerrou 2025 com o maior número de denúncias de trabalho escravo e de condições análogas à escravidão desde o início da série histórica. Ao todo, foram registradas 4.515 denúncias ao longo do ano, segundo dados inéditos do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), obtidos com exclusividade pelo portal de notícias g1. O volume representa um aumento de 14% em relação a 2024, quando já havia sido contabilizado um recorde histórico, com 3.959 registros.

O crescimento das denúncias reforça uma tendência observada nos últimos anos e evidência que o trabalho escravo contemporâneo segue presente em diferentes setores da economia brasileira. As informações oficiais apontam que, em pouco mais de uma década, o número anual de denúncias mais que dobrou, o que amplia o debate sobre os impactos sociais e econômicos desse tipo de violação de direitos.

Leia também: Estudo revela o que profissionais de 18 a 54 anos esperam das empresas

Os números elevados indicam que o trabalho escravo continua impactando a economia brasileira ao gerar concorrência desleal | Foto: Reprodução/Canva
As denúncias registradas em 2025 incluem casos envolvendo adultos e também situações de trabalho escravo infantil, o que agrava ainda mais o cenário | Foto: Reprodução/Canva

O que caracteriza o trabalho escravo contemporâneo

De acordo com a legislação brasileira, o trabalho escravo contemporâneo é caracterizado por práticas como jornada exaustiva, condições degradantes de trabalho, servidão por dívida e restrição de liberdade.

O MDHC enfatiza que essas práticas violam direitos fundamentais e afetam diretamente a renda, a saúde e a segurança dos trabalhadores, além de distorcerem a concorrência econômica ao reduzir artificialmente custos de produção por meio da exploração da mão de obra.

Janeiro concentra maior volume de registros

Os dados mostram que janeiro de 2025 foi o mês com o maior número de denúncias já registrado desde a criação do Disque 100, canal oficial do governo federal para registro de violações de direitos humanos, em 2011. Apenas no primeiro mês do ano, foram contabilizadas 477 denúncias relacionadas a trabalho escravo.

Desde que o Disque 100 passou a receber esse tipo de registro, mais de 26 mil denúncias de trabalho escravo e condições análogas à escravidão foram feitas em todo o país. O crescimento contínuo ao longo dos anos indica que o problema permanece estrutural e distribuído em diferentes regiões.

Evolução dos números ao longo dos anos

O histórico recente evidencia uma escalada significativa. Em 2021, foram registradas 1.918 denúncias. Em 2022, o total subiu para 2.084. Em 2023, chegou a 3.430 registros. Já em 2024, foram 3.959 denúncias, até então o maior número da série histórica. Em 2025, o novo recorde de 4.515 denúncias consolidou essa trajetória de alta.

Antes desse período, o maior volume anual havia sido registrado em 2013, com 1.743 denúncias. Em termos proporcionais, o avanço evidencia tanto a persistência do crime quanto a ampliação do acesso aos canais de denúncia.

Resgates seguem em patamar elevado

O aumento das denúncias acompanha o número de resgates realizados pelo poder público. Em 2024, 2.186 pessoas foram resgatadas de situações de trabalho análogo à escravidão no Brasil, segundo dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho, a SIT, vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, o MTE.

De acordo com o MTE, cerca de 65.600 pessoas já foram resgatadas de condições análogas à escravidão no país desde 1995, ano em que o Estado brasileiro reconheceu oficialmente a existência de formas contemporâneas de escravidão. Esse total resulta de mais de 8.400 ações fiscais realizadas em todo o território nacional até dezembro de 2024.

As operações de fiscalização são conduzidas principalmente pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, coordenado pelo MTE, com apoio das unidades regionais do órgão nos estados.

Setores com maior concentração de resgates

Em 2024, os setores econômicos com maior número de trabalhadores resgatados, segundo a Classificação Nacional das Atividades Econômicas (CNAE), foram a construção de edifícios, com 293 pessoas resgatadas, o cultivo de café, com 214, o cultivo de cebola, com 194, os serviços de preparação de terreno, cultivo e colheita, com 120, e a horticultura, exceto morango, com 84 resgates.

Os dados também apontam uma mudança relevante no perfil do problema. Cerca de 30% dos trabalhadores resgatados em 2024 estavam em áreas urbanas, indicando a expansão do trabalho escravo para além do meio rural, historicamente associado a grandes propriedades agrícolas.

Impactos econômicos e sociais

Especialistas ouvidos pelo poder público destacam que o aumento das denúncias não significa, necessariamente, um crescimento isolado do crime, mas pode refletir maior conscientização da população, ampliação dos canais de denúncia e maior confiança nos mecanismos de proteção e fiscalização.

Ainda assim, os números elevados indicam que o trabalho escravo continua impactando a economia brasileira ao gerar concorrência desleal, reduzir a arrecadação de tributos e comprometer a renda de milhares de trabalhadores. O problema também afeta políticas públicas voltadas à inclusão produtiva e ao desenvolvimento regional.

Como denunciar situações de trabalho escravo

O Disque 100 funciona diariamente, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. As ligações são gratuitas e podem ser feitas de qualquer telefone fixo ou móvel em todo o Brasil. Qualquer pessoa pode registrar denúncia sobre violações de direitos humanos das quais seja vítima ou tenha conhecimento.

As informações recebidas são analisadas pelo MDHC e encaminhadas aos órgãos responsáveis pela proteção e responsabilização. O governo federal também mantém o Sistema Ipê, canal específico para denúncias de trabalho análogo à escravidão disponível na internet, no qual o denunciante não precisa se identificar e pode fornecer o maior número possível de informações.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

Newsletter

As principais notícias de finanças no seu e-mail

Análises de mercado, economia e negócios. Sem spam, cancele quando quiser.