Mais da metade dos trabalhadores brasileiros chega ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar todas as despesas depois de receber o salário. O problema atinge 53% dos profissionais, segundo a Pesquisa de Saúde Financeira dos Trabalhadores 2026, da Serasa Experian. O percentual ficou próximo ao registrado em 2025, quando 54% dos entrevistados relataram a mesma dificuldade.
Entre os participantes, 47% precisam recorrer a algum recurso ou alternativa para conseguir fechar as contas, enquanto 6% terminam o mês sem dinheiro e também não utilizam nenhuma opção extra. Só 47% conseguem chegar ao fim do período com algum valor disponível.

Em julho, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio), o maior percentual da série histórica. No mesmo mês, os saques da poupança superaram os depósitos em R$ 7,15 bilhões, de acordo com o Banco Central.
Os levantamentos tratam de situações diferentes e não permitem dizer que uma seja responsável pela outra. Em conjunto, porém, os números mostram que uma parcela importante dos brasileiros tem encontrado pouco espaço no orçamento para guardar dinheiro ou absorver despesas inesperadas.
Alimentação e contas da casa pesam mais
Quando o salário não é suficiente para cobrir o mês, os principais gastos são justamente os mais difíceis de cortar. Alimentação foi apontada por 78% dos entrevistados, enquanto contas como água, luz e gás apareceram para 72%.
Financiamentos de imóveis ou veículos foram citados por 44% dos trabalhadores. Roupas, utilidades e outros itens de consumo ficaram em 43%, seguidos por empréstimos, com 33%, e estudos, com 22%.
O dinheiro disponível é consumido por uma combinação de necessidades básicas e compromissos assumidos anteriormente. Quando sobra pouco ou nada depois desses pagamentos, fica mais difícil formar uma reserva para emergências.
Para Délber Lage, diretor-geral da SalaryFits, empresa da Serasa Experian, a dificuldade de equilibrar as contas não é passageira para uma parcela relevante dos profissionais.
“Os dados mostram que a dificuldade de equilibrar o orçamento não é uma situação pontual para uma parcela relevante dos trabalhadores brasileiros”, afirmou em nota.
Segundo ele, a falta de margem no orçamento pode levar à busca por outras formas de complementar a renda ou financiar despesas do dia a dia.
Pressão financeira também aparece no trabalho
Os problemas com dinheiro não ficam restritos às contas de casa. Entre os entrevistados que passaram ou ainda passam por dificuldades financeiras nos últimos cinco anos, 44% relatam irritabilidade e outros 44% apontam insônia. Também foram mencionados alterações acentuadas de peso, depressão, dores físicas e isolamento social.
No trabalho, 51% relatam estresse, enquanto 46% afirmam ter enfrentado exaustão extrema ou esgotamento físico. A dificuldade de manter a atenção foi citada por 35%, e 33% perceberam queda na produtividade.
A pesquisa ouviu 1.008 profissionais de empresas públicas e privadas, incluindo trabalhadores com carteira assinada e pessoas que atuam como PJ. As entrevistas foram realizadas entre 12 e 30 de junho, por meio de painel on-line, com margem de erro de 3,1 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%.
Endividamento e poupança mostram outro lado do orçamento
O levantamento da Serasa Experian também pode ser observado ao lado de dois indicadores recentes sobre as finanças das famílias. Em julho, o percentual de famílias endividadas chegou a 82%, acima dos 78,5% registrados no mesmo mês de 2025. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o índice alcançou 84,9%.
No mesmo período, a poupança registrou mais saques do que depósitos. Os brasileiros colocaram R$ 370,76 bilhões na caderneta e retiraram R$ 377,92 bilhões, resultando em uma saída líquida de R$ 7,15 bilhões.
Os números não significam que todo trabalhador que termina o mês sem dinheiro esteja endividado ou tenha retirado recursos da poupança. Ainda assim, os três levantamentos ajudam a retratar diferentes pontos da relação dos brasileiros com o próprio dinheiro: há menos sobra no fim do mês, o endividamento permanece elevado e, em julho, houve mais dinheiro saindo da poupança do que entrando.
Com pouca margem entre o que entra e o que sai, despesas essenciais acabam ocupando boa parte da renda. Isso também reduz o espaço para guardar dinheiro e enfrentar gastos que não estavam previstos.
Pesquisa mostra estabilidade em relação a 2025
A proporção de trabalhadores que não conseguem fechar o mês com dinheiro suficiente praticamente não mudou em um ano. A queda de 54% para 53% ficou dentro de uma diferença pequena, mantendo o indicador em um patamar elevado.
Na edição anterior, realizada em 2025, foram ouvidos 1.029 trabalhadores. Em 2024, a pesquisa contou com 802 participantes. A Serasa Experian informa que, em 2025 e 2026, foi utilizado um painel de respostas diferente do adotado em 2024.
Os dados reforçam que a dificuldade de fazer o salário chegar ao fim do mês continua presente na rotina de muitos trabalhadores brasileiros, especialmente quando despesas básicas e compromissos financeiros consomem boa parte da renda.


