O Halloween de 2024 pode ser menos doce para quem ama chocolate. O aumento significativo no preço do cacau, fruto de condições climáticas adversas, ameaça deixar os chocolates mais caros e as porções menores, segundo especialistas do setor.
Este aumento de custo já vem afetando as principais temporadas de venda de chocolate, como a Páscoa e o Dia dos Namorados, e deve atingir fortemente as festas de Halloween, quando o consumo de doces dispara.
O cacau, ingrediente base do chocolate, teve seus preços mais que dobrados desde o início de 2024, como aponta um levantamento do Wells Fargo. Essa alta se deve principalmente aos impactos do fenômeno El Niño, que elevou as temperaturas, gerou estresse hídrico e afetou diretamente as principais regiões produtoras de cacau na África Ocidental, responsável por mais de 70% da produção global.
Impactos do El Niño no cultivo de cacau

A produção de cacau está fortemente concentrada em áreas específicas da África Ocidental, inclusive países como Costa do Marfim e Gana. Essas regiões foram duramente afetadas por uma combinação de condições climáticas adversas, como o aumento das temperaturas, chuvas torrenciais e ventos secos causados pelo fenômeno El Niño. Essas condições afetaram diretamente os cacaueiros, reduzindo a produtividade da safra.
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David Branch, gerente do Agri-Food Institute do Wells Fargo, explicou que o cacau é uma cultura altamente sensível ao clima, exigindo temperaturas e condições específicas para prosperar. Ele destaca que, além do estresse hídrico nas plantas, a proliferação de doenças como a “podridão parda”, um fungo que ataca os cacaueiros, reduziu significativamente a oferta global de cacau.
Com a previsão de uma queda de 14,2% na produção global de cacau para esta temporada, de acordo com a Organização Internacional do Cacau, o impacto no mercado de chocolates é inevitável. Empresas como a Hershey, uma das maiores fabricantes de chocolate do mundo, já sentem os efeitos dessa crise. Em agosto de 2024, a empresa registrou uma queda de 48,7% em seu lucro operacional, devido ao aumento nos custos do cacau.
Redução no tamanho e novas alternativas
Com o aumento nos custos de produção, as empresas estão sendo forçadas a adotar estratégias para lidar com a escassez e o alto preço do cacau. Uma das soluções mais visíveis é a reduflação — prática em que as embalagens dos produtos são reduzidas, mas o preço se mantém. Essa prática pode ser observada em sacolas de doces variados, que estarão com menos peso, mas com o mesmo valor de mercado.
David Branch destaca que no Halloween produtos populares, como sacolas de doces mistas, os consumidores podem encontrar menos chocolate e mais variedades de guloseimas. “Você provavelmente verá embalagens que antes pesavam dois quilos agora pesando menos, mas custando o mesmo”, afirmou Branch.
Outra solução adotada pelas empresas é modificar o perfil de sabor de alguns produtos. Alguns fabricantes estão substituindo parte do chocolate por recheios de bolacha, nozes ou outros ingredientes que demandam menos cacau em sua composição. Sally Lyons Wyatt, consultora-chefe de bens de consumo embalados na Circana, explica que essa é uma saída para reduzir a dependência do cacau sem prejudicar tanto a experiência do consumidor.
Grandes empresas como a Mars, responsável por marcas icônicas como M&M’s e Skittles, já ampliaram suas ofertas de doces sem chocolate, focando em balas de goma e doces com sabores de frutas. Esse movimento visa atender à crescente demanda dos consumidores mais jovens, que têm mostrado maior interesse por produtos sem cacau.
O futuro do mercado de chocolate
Embora a situação pareça difícil a curto prazo, há esperança no horizonte. Especialistas indicam que as condições climáticas nas regiões produtoras de cacau estão começando a melhorar, o que pode resultar em um aumento da oferta em breve. No entanto, espera-se que os preços permaneçam elevados até pelo menos setembro de 2025, o que continuará impactando os consumidores durante o próximo ano.
Apesar da crise no setor, o chocolate ainda domina o mercado de doces. Dados da National Confectioners’ Association (NCA) mostram que, em 2023, o segmento de chocolates representou mais da metade das vendas totais de confeitos, com um faturamento de US$ 25,9 bilhões. O consumo de doces sem chocolate, no entanto, tem crescido a um ritmo mais acelerado, com um aumento de 12,1% em comparação com o crescimento de 5,8% nas vendas de chocolates.
Essa tendência reflete uma mudança no comportamento do consumidor, que está ajustando seus hábitos de compra diante do aumento de preços. Lyons Wyatt observa que, embora os consumidores estejam comprando menos chocolate do que antes, ele permanece como a categoria dominante nas prateleiras.
Com o aumento expressivo no preço do cacau e a necessidade das empresas de se adaptarem, o Halloween de 2024 deve ser marcado por mais variedade e menos chocolate nas sacolas de doces. Mesmo assim, o amor pelo chocolate continua forte entre os consumidores, e as empresas estão encontrando formas criativas de atender à demanda, seja reduzindo o tamanho das porções ou inovando nos recheios e sabores.
A expectativa é de que, nos próximos anos, o mercado de chocolate se estabilize com a melhora das condições climáticas, mas até esse momento, os consumidores devem se preparar para pagar mais por seus doces favoritos — ou optar por alternativas sem chocolate.


