Quase quatro em cada dez brasileiros gastam mais do que recebem, pelo menos no período analisado pelo Índice Planejar. Segundo o levantamento, 39% das pessoas ficaram nessa situação, enquanto 35% gastaram aproximadamente o mesmo valor que receberam. Apenas 22% conseguiram gastar menos do que a própria renda.

Quando isso acontece, o orçamento pode ser apertado com cortes, contas podem ficar para depois e o crédito passa a ser usado para completar a renda.
O Índice Planejar, criado pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), deu 52,7 pontos ao planejamento financeiro dos brasileiros, em uma escala de zero a 100. A nota é considerada intermediária e foi calculada com base nas respostas de 2 mil pessoas entrevistadas pelo Datafolha.
Falta de dinheiro chega a gastos essenciais
Entre as situações enfrentadas pelos entrevistados nos últimos 12 meses, aparecem casos de pessoas que precisaram reduzir gastos essenciais, como alimentação e transporte, para conseguir pagar as contas.
Também foram registradas situações de atraso em despesas básicas, como luz, água, telefone e internet. Esses casos mostram o o problema deixa de ser apenas uma questão de organização e passa a afetar necessidades do dia a dia.
O levantamento também registra brasileiros que precisaram pedir dinheiro emprestado a parentes ou amigos, contratar empréstimo pessoal ou consignado, ter o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) negativado, receber contato de empresas de cobrança ou recorrer ao crédito rotativo do cartão e ao limite do cheque especial.
É mais fácil saber quanto entra do que quanto sai
Outro dado do Índice Planejar mostra uma diferença entre acompanhar a renda e controlar as despesas. Entre as pessoas que possuem renda mensal, 59% afirmam saber exatamente quanto recebem. Outros 28% têm uma ideia do valor, mas não sabem o número exato, enquanto 6% não sabem qual é o próprio rendimento mensal.
Quando a pergunta muda para os gastos, o acompanhamento é menor. 41% dizem saber exatamente quanto gastam por mês, mas 52% têm apenas uma boa ideia do total, sem conhecer o valor exato. Outros 7% não sabem quanto gastam.
A diferença ajuda a explicar uma dificuldade comum no orçamento: conhecer o dinheiro que entra não significa necessariamente acompanhar com a mesma precisão tudo o que sai. Gastos pequenos e despesas que aparecem ao longo do mês podem se acumular e comprometer uma parte maior da renda do que o esperado.
Mesmo assim, 64% afirmam planejar os gastos com frequência. Outros 26% fazem isso apenas às vezes e 11% nunca ou raramente planejam.
Reserva para emergências é o ponto mais fraco
A dimensão de reserva e resiliência recebeu a menor nota do índice: 39,3 pontos. A expressão resiliência, nesse caso, está relacionada à capacidade de a pessoa suportar um imprevisto financeiro sem comprometer ainda mais o orçamento.
É nesse ponto que aparece uma das maiores diferenças do levantamento. Os brasileiros tiveram desempenho melhor na organização das despesas do mês, mas encontraram mais dificuldade para guardar dinheiro e criar uma proteção para situações inesperadas.
A gestão orçamentária teve a maior pontuação, com 70,1 pontos. A dimensão considera ações como planejar o mês, conhecer os gastos e fazer as despesas caberem na renda.
A área de proteção e seguros ficou em segundo lugar, com 63 pontos. Já o endividamento marcou 47,8 pontos e o planejamento de prazo longo, 43,3.
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Esse último está relacionado à capacidade de estabelecer objetivos para o futuro. O resultado indica que pensar em metas que vão além das necessidades imediatas ainda é uma dificuldade para uma parcela importante dos entrevistados.
Faixa de 25 a 44 anos tem a menor nota
O planejamento financeiro também varia conforme a idade, mas não melhora de forma contínua com o passar dos anos. Os brasileiros entre 25 e 44 anos tiveram a menor pontuação: 51,3 pontos. Segundo o levantamento, essa fase reúne uma série de responsabilidades ao mesmo tempo, como despesas com filhos, financiamentos de longo prazo e decisões para formar patrimônio.
A carreira ainda pode estar em consolidação, enquanto o patrimônio acumulado nem sempre é suficiente para absorver todos esses compromissos. Essa combinação ajuda a explicar a maior dificuldade registrada entre essa faixa etária.
Na sequência aparecem os brasileiros de 45 a 60 anos, com 53 pontos, e os jovens de 18 a 24 anos, com 53,6 pontos. A maior nota foi registrada entre pessoas com 61 anos ou mais, com 57,6 pontos.
Como o Índice Planejar foi calculado?
O indicador foi criado pela Planejar a partir de uma pesquisa nacional encomendada ao Datafolha. Foram entrevistadas 2 mil pessoas das classes A, B e C, com acesso à internet, de diferentes gêneros, idades e níveis educacionais.
A coleta foi realizada entre 16 e 29 de julho de 2025, com participantes que tinham renda média de R$ 5.778.
O índice considera 20 perguntas e procura medir ações realizadas pelos brasileiros, e não apenas o conhecimento que afirmam ter ou os investimentos que possuem.
Cada parte da pesquisa recebeu um peso diferente de acordo com a fase da vida. Para os mais jovens, por exemplo, a gestão do orçamento teve maior peso. Para os mais velhos, o planejamento de prazo longo ganhou mais importância.
A proposta da Planejar é usar o indicador para ajudar planejadores financeiros e instituições financeiras a desenvolver estratégias de acordo com as necessidades de cada etapa da vida. A intenção é que o Índice Planejar seja divulgado novamente, embora a frequência ainda não tenha sido definida.


