O dinheiro que não aparece nos relatórios
A Feira Preta é, antes de qualquer coisa, um ato político. Criada em São Paulo por Adriana Barbosa há mais de duas décadas, ela é a maior feira de negócios da cultura negra da América Latina. Quando chega ao Rio, não traz apenas empreendedores, artistas e público; traz consigo uma afirmação: a produção cultural negra tem valor de mercado, tem escala, tem futuro. E exige espaço (alô, SP).
A Rio Nature and Climate Week coloca o Rio no mapa das cidades que estão tentando pautar o debate global sobre crise climática, trazendo especialistas internacionais, delegações governamentais e uma imprensa atenta que, na maior parte do tempo, só cobre o meio ambiente quando há tragédia climática.
O Rio2C é a aposta mais consolidada da cidade no mercado de entretenimento e criatividade, indo da música ao audiovisual, da inovação aos negócios, encontrando elo no Web Summit, sinal mais claro de que o Rio quer ser levado a sério como um hub tecnológico global (centro de inovação e tecnologia).
O problema que ninguém quer nomear é que a maior parte desse movimento acontece numa faixa geográfica muito estreita da cidade, num eixo Zona Sul–Zona Oeste, passando por alguns pontos do Porto Maravilha. O Rio tem 6,2 milhões de habitantes espalhados por 1.200 quilômetros quadrados. Tem o maior conjunto de favelas da América do Sul. Tem bairros na Zona Norte e na Zona Oeste que são cidades dentro da cidade, com densidade, com cultura e uma pulsão de criatividade que não está no gibi.
Quando o Web Summit lota o Riocentro e os hotéis da Barra, o que chega até Realengo? Até Bangu? Até Anchieta? O motorista de Uber que mora lá acorda às cinco da manhã para atravessar a cidade e pegar uma corrida no Galeão. Ele participa do ecossistema como mão de obra invisível, não como beneficiário. E isso deixou de ser exclusividade carioca. São Paulo faz o mesmo. Lisboa fez o mesmo antes de começar a corrigir.


