Descentralizar não é inclusão: é estratégia econômica
Existe um argumento econômico — não apenas social — para descentralizar o polo criativo de uma cidade como o Rio. Primeiro: a capacidade instalada do Centro e da Zona Sul já está no limite. Hotéis lotam, o trânsito colapsa e o custo de receber eventos cresce na proporção da saturação. Expandir geograficamente não é generosidade, é gestão.
Daí que a cultura que o mundo quer consumir quando vem ao Rio muitas vezes não está no Riocentro; está no Cacique de Ramos ou no Renascença. O turista criativo que o Rio2C e o Web Summit atraem não quer só painéis, quer experiência. E experiência autêntica está distribuída pela cidade inteira.
Descentralizar o polo criativo exige uma decisão política que vai além de levar um evento para Bangu. Exige pensar em quem fica, em quem é empurrado para fora, em quem recebe os recursos e em quem tem voz no processo.
Duas semanas de Feira Preta, Rio Nature and Climate Week, Rio2C e Web Summit são, sim, motivo de celebração. O Rio prova ao país que tem capacidade de concentrar conversas globais sobre cultura, raça, clima e tecnologia num mesmo ciclo. Isso não é pouca coisa para uma cidade que passou décadas sendo pautada por má gestão.
Só que celebração sem crítica é release. A diferença está em ter estrutura física, política e cultural justamente para canalizar essa energia para além dos bairros que já sabem que existem.
O Rio tem um talento raro: ele consegue fazer o mundo olhar para ele. O que ele ainda precisa aprender é fazer a cidade inteira olhar para si mesma.


