Uma pesquisa feita pelo Instituto Sonho Grande mostrou que os alunos de escolas públicas estaduais que estudam em tempo integral tiveram notas melhores no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2024 do que os colegas que estudam apenas em meio período.
O Enem é a prova nacional que avalia os estudantes do ensino médio e serve como porta de entrada para o ensino superior, como universidades e faculdades.

Para que uma escola seja considerada de tempo integral, os estudantes precisam ter aulas por pelo menos sete horas por dia, ou seja, 35 horas por semana, para oferecer mais tempo para aprender, praticar atividades e se preparar para a vida após a escola. Nas escolas de meio período, em geral, os alunos ficam cerca de quatro horas diárias.
Conforme a pesquisa, os maiores resultados apareceram na redação do Enem, que é a parte da prova em que os estudantes escrevem um texto sobre um tema, com nota máxima de 1.000 pontos. Estudantes de escolas integrais tiveram, em média, 12 pontos a mais na redação em comparação com os de escolas regulares.
Quando a escola tem 100% das matrículas em tempo integral, a diferença cresce para 27 pontos. Em matemática, também houve vantagem: alunos de escolas integrais ficaram cinco pontos acima dos colegas de meio período. Esses números mostram que a dedicação de mais tempo de estudo pode trazer bons resultados.
Nordeste se destaca
Os dados do Censo Escolar 2024 apontam que a região Nordeste concentra os maiores índices de alunos no ensino médio integral. Pernambuco lidera com quase 70% dos estudantes nessa modalidade, seguido por Ceará, Paraíba, Piauí e Sergipe.
Nesses estados, os alunos de escolas integrais tiveram notas mais altas não só na redação, mas também nas quatro áreas avaliadas no Enem: linguagens e códigos, ciências humanas, ciências da natureza e matemática.
Em Pernambuco, os estudantes de escolas totalmente integrais tiveram desempenho 68 pontos acima na redação em comparação aos colegas de meio período. Já no Ceará, a diferença chegou a 134 pontos. Esses dois estados foram pioneiros na implantação do modelo e, hoje, a maioria de suas escolas já funciona em tempo integral.
Outro estudo, feito em parceria entre economistas e o Instituto Natura, mostrou que os jovens de escolas integrais participam mais do Enem. O levantamento, que analisou dados de 2017 a 2019, revelou que esses alunos têm 16,5% mais chances de se inscrever e fazer a prova. Além disso, as notas dos alunos integrais também foram mais altas, especialmente na redação, com 29 pontos de vantagem.
Mais oportunidades para os jovens
Os ganhos do ensino integral não se limitam às notas. Pesquisas mostram que os jovens dessas escolas têm mais chances de conseguir um emprego melhor, com salários mais altos, e de entrar no ensino superior. Outros benefícios apontados incluem a redução da violência, da gravidez na adolescência, da desnutrição e até do uso de drogas. Ou seja, o modelo integral ajuda tanto no aprendizado quanto na qualidade de vida dos estudantes.
Mesmo com os avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios para ampliar o ensino integral. O Plano Nacional de Educação (PNE), que é uma lei que define metas para a educação, previa que até 2024 o país tivesse 25% das matrículas da educação básica em tempo integral. Porém, o índice ficou em 22,9%. No ensino médio, o avanço foi maior: passou de 14,1% em 2020 para 24,2% em 2024.
Os principais desafios para crescer nesse modelo são garantir financiamento público contínuo, apoiar os estudantes mais pobres com programas de incentivo financeiro, como o Pé-de-Meia, e organizar as redes de ensino com planejamento de longo prazo.
Programa Escola em Tempo Integral
Em 2023, o Ministério da Educação lançou o Programa Escola em Tempo Integral, cuja meta é criar 3,2 milhões de novas vagas até 2026. O objetivo é apoiar estados e municípios para ampliar a jornada escolar em todas as etapas da educação básica. A proposta é que, até 2035, o Brasil chegue a pelo menos 50% das matrículas em tempo integral e 70% das escolas funcionando nesse modelo.
Especialistas reforçam que não basta apenas aumentar o tempo de aula. É preciso repensar a forma de ensinar, tornando a escola mais acolhedora, interessante e significativa para o jovem. Quando isso acontece, os resultados aparecem não apenas nas provas, mas também no futuro dos estudantes, que passam a ter mais oportunidades e uma vida com mais qualidade.