Debate sobre outras alternativas ao dólar
A referência ao Brics ocorre em um momento em que o bloco está debatendo a desdolarização, em meio a críticas ao sistema financeiro global e à governança de entidades como o Banco Mundial e o FMI.
A supremacia do dólar oferece vantagens econômicas e geopolíticas aos EUA. O interesse por alternativas ao dólar cresceu desde que os EUA intensificaram as sanções financeiras após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
A criação de uma moeda única para transações comerciais dentro do Brics poderia reduzir a dependência do dólar, mas, por enquanto, o foco está no estímulo ao uso de moedas locais no comércio.
O Brics possui seu próprio banco, o Novo Banco de Desenvolvimento, que financia projetos em moedas locais e é liderado pela ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, que já criticou o uso do dólar como uma ferramenta de poder.
Apesar das críticas à hegemonia do dólar no comércio internacional e do desejo de diminuir a dependência da moeda americana, não há perspectiva de adoção de alternativas para transações dentro do bloco no curto prazo.
A ideia de criar uma nova moeda sequer é mencionada nas declarações das cúpulas do Brics. Após as ameaças de Trump, o governo da África do Sul deixou claro que não há planos para a criação de uma moeda própria do Brics.
Nesse contexto, a advertência de Trump foi criticada por sugerir que a confiança no dólar estaria em risco.
“Uma moeda do Brics é apenas uma ideia, não uma realidade”, afirmou à BBC News Brasil o professor Daniel McDowell, da Universidade de Syracuse, autor do livro Bucking the Buck: US Financial Sanctions and the International Backlash Against the Dollar.
“Se você acredita que a única forma de manter os países usando o dólar é com ameaças, isso seria um problema. Não acho que seja a situação do dólar. Os EUA não precisam de ameaças para que o dólar continue sendo a moeda mais importante do mundo”, afirmou McDowell.
Não há sinais de que a hegemonia do dólar esteja ameaçada, especialmente em um momento de forte desempenho da economia dos EUA e de elevado risco geopolítico global.
O dólar continua sendo a principal moeda de reserva internacional. De acordo com o FMI, os bancos centrais ao redor do mundo possuem quase US$ 7 trilhões (mais de R$ 42 trilhões) em reservas na moeda americana, o que representa 58% do total, três vezes mais do que as reservas em euros, que ocupam o segundo lugar.
“A posição dos Estados Unidos e a importância do dólar são tão fortes que é muito difícil para os países se afastarem”, afirmou à BBC News Brasil o economista Alan Deardorff, professor da Universidade de Michigan.
“Se Trump utilizar todas as tarifas que mencionou, existe o risco de isolar os EUA da economia mundial e tornar o dólar menos útil para outros países. Isso poderia reduzir a dependência do dólar, que é justamente o que ele quer evitar”, afirmou Deardorff.
China e Rússia, membros do Brics, reagiram às ameaças do presidente eleito dos EUA.
Um porta-voz do Kremlin afirmou que, caso os EUA usem “força econômica” para obrigar os países a utilizarem o dólar, isso poderia “fortalecer ainda mais a tendência de mudança para moedas nacionais no comércio internacional”.
Já um porta-voz da Embaixada da China nos EUA declarou à imprensa americana que os EUA têm usado há muito tempo a hegemonia do dólar “como uma ferramenta geopolítica”, o que “prejudica a estabilidade econômica e financeira internacional e perturba a ordem global”.


