A produção de mel no Ceará tem crescido nos últimos anos e se destacado pela qualidade orgânica do produto. No entanto, sofreu um duro golpe recentemente. Contêineres com toneladas de mel, já embalados e prontos para exportação, ficaram parados nos portos do Nordeste após uma nova medida anunciada pelos Estados Unidos, que afetou diretamente o comércio com o Brasil.
O impacto foi ainda maior nas cooperativas do semiárido cearense, onde a apicultura representa uma das poucas fontes de renda para pequenos produtores da região. O caso mais emblemático é o da Casa Apis, uma cooperativa localizada no Piauí, mas que também compra e processa mel do Ceará.

Cerca de 95 toneladas de mel orgânico, destinadas aos Estados Unidos, tiveram a exportação cancelada de última hora. Todo o lote já estava embalado e pronto para embarque. Outros contêineres de mel cearense também foram retidos nos portos ou devolvidos aos armazéns, sem destino definido após o cancelamento das vendas.
A situação é especialmente preocupante porque o mel produzido no Ceará é altamente valorizado no mercado internacional, com forte demanda nos Estados Unidos e na Europa. Em muitas cidades do interior do estado, principalmente nas regiões mais secas, a apicultura é uma das principais atividades econômicas.
A interrupção nas exportações representa uma perda significativa de renda para as famílias que dependem diretamente da produção de mel. O impacto atinge também cooperativas, transportadoras e distribuidores envolvidos na cadeia produtiva.
Entenda a nova taxa dos EUA e por que ela afeta o Brasil
A suspensão das exportações brasileiras foi causada por uma nova política comercial anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que retornou ao cargo com um discurso mais rígido sobre comércio exterior.
Como parte de sua estratégia, o presidente dos EUA impôs uma sobretaxa de 50% sobre todos os produtos importados do Brasil. O objetivo é forçar novos acordos bilaterais mais favoráveis aos interesses norte-americanos.
A medida entrou em vigor de forma repentina e pegou exportadores de surpresa. Diversos setores foram afetados, incluindo o de mel, que vinha sendo exportado em larga escala por empresas e cooperativas do Nordeste.
Com a nova tarifa, os produtos brasileiros ficaram muito mais caros para os compradores nos EUA. Isso fez com que muitos cancelassem contratos ou buscassem fornecedores em outros países.
Além do produto, outros itens também foram atingidos, como pescado, carne bovina, suco de laranja e café. No entanto, a apicultura nordestina é uma das mais vulneráveis. Ela depende fortemente do mercado externo e tem pouca margem para reagir rapidamente à perda de compradores.
A sobretaxa de 50% faz com que o mel brasileiro chegue aos Estados Unidos custando praticamente o dobro do preço original. Com isso, o produto perde competitividade e se torna inviável no mercado internacional — especialmente diante de países que continuam exportando sem esse tipo de imposto.
Efeitos para a exportação do Ceará e possíveis soluções
Os efeitos da taxação já começaram a aparecer no Ceará. Sem poder exportar, muitas cooperativas estão com estoques cheios e sem previsão de escoamento. Como o mercado interno não consegue absorver toda essa produção, os preços do produto tendem a cair localmente, o que reduz ainda mais a renda dos pequenos produtores.
A situação também traz incertezas para os próximos meses, já que os apicultores seguem colhendo o produto, mas sem saber se terão para quem vender. Além disso, o armazenamento prolongado pode comprometer a qualidade do produto, o que gera mais prejuízo para as cooperativas.
Especialistas defendem que o governo federal atue rapidamente em duas frentes. A primeira é diplomática: negociar com os Estados Unidos para tentar reduzir ou eliminar a taxa, especialmente para produtos agrícolas que já tinham contratos vigentes. A segunda é o incentivo à diversificação de mercados, fortalecendo a exportação para países da Europa, Ásia e Oriente Médio, onde o mel brasileiro também é bem aceito.
Enquanto essas soluções não chegam, o prejuízo segue afetando o setor apícola no Ceará, que vinha avançando em sustentabilidade e geração de emprego no campo. Agora, diante da instabilidade no comércio internacional, produtores enfrentam incertezas e arriscam ver anos de esforço escoando sem destino.


