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Lula diz no BRICS que comércio global está ameaçado

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Durante a sessão plenária “Paz e Segurança e Reforma da Governança Global”, realizada neste domingo, 6 de julho no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um pronunciamento contundente. Segundo ele, o comércio global está sob ameaça, em razão das recentes políticas protecionistas adotadas pelos Estados Unidos, especialmente no contexto da volta de tarifas comerciais promovidas pelo governo de Donald Trump.

Lula declarou que o multilateralismo está “sob ataque” e que a autonomia dos países em desenvolvimento está novamente em xeque”. Ele também alertou que conquistas históricas como os acordos climáticos e os tratados de comércio estão sob risco. A fala ocorre justamente em um momento de forte tensão nas relações comerciais globais, impulsionada pelo retorno da retórica nacionalista e tarifária nos EUA.

A fala de Lula na cúpula do BRICS expõe o dilema enfrentado por economias emergentes diante do ressurgimento de políticas protecionistas, como as tarifas comerciais dos EUA | Foto: Reprodução/Folha de SP
A fala de Lula na cúpula do BRICS expõe o dilema enfrentado por economias emergentes diante do ressurgimento de políticas protecionistas, como as tarifas comerciais dos EUA | Foto: Reprodução/Folha de SP

“Com o multilateralismo sob ataque, nossa autonomia está novamente em xeque. Avanços arduamente conquistados, como os regimes de clima e comércio, estão ameaçados”, afirmou Lula.

O contexto da fala de Lula: tarifas e geopolítica em ebulição

A crítica de Lula vem no embalo de uma das principais discussões da semana nos mercados: o prazo final para que os Estados Unidos restabeleçam tarifas comerciais a países com os quais não firmaram novos acordos bilaterais, previsto para 9 de julho de 2025. A medida, anunciada por Trump em abril, visa pressionar os parceiros a reverem seus termos de comércio com Washington.

Até o momento, apenas Reino Unido e Vietnã firmaram novos acordos. Grandes economias como Japão, União Europeia e China seguem em compasso de espera. A tensão atinge também países emergentes como o Brasil, que tem nos EUA um de seus principais parceiros comerciais, o fluxo de comércio bilateral entre os dois países somou cerca de US$ 88 bilhões em 2023, o equivalente a mais de R$ 472 bilhões (considerando o dólar a R$ 5,37 em julho de 2025).

As tarifas podem encarecer produtos exportados pelo Brasil para o mercado norte-americano, afetando diretamente setores como agronegócio, siderurgia e têxteis. No caso da carne bovina, por exemplo, os EUA foram responsáveis por quase R$ 3,6 bilhões das exportações brasileiras em 2023, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Lula cobra reforma na ONU e critica a paralisia da governança global

No mesmo discurso, o presidente brasileiro também voltou a defender uma reforma urgente no Conselho de Segurança da ONU, bandeira histórica da diplomacia brasileira. Lula afirmou que o atual modelo de governança internacional é ineficaz e exclui vozes do Sul Global.

“É preciso transformar profundamente o Conselho de Segurança, para torná-lo mais legítimo, representativo, eficaz e democrático, incluindo novos membros. É mais que uma questão de justiça, é garantir a existência da ONU”, declarou.

A fala ecoa a demanda de países como Brasil, Índia e África do Sul por mais protagonismo nas decisões globais, em contraste com a hegemonia de países do Norte Global no Conselho, como EUA, França e Reino Unido, os três com poder de veto.

Comércio em queda e alertas sobre crescimento global

Os alertas de Lula se somam a dados preocupantes da economia internacional. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o volume do comércio global deve crescer apenas 2,6% em 2025, após uma expansão tímida de 0,8% em 2024, abaixo da média histórica. Um eventual aumento de tarifas pelos EUA pode comprometer ainda mais essa projeção.

Além disso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) já projeta um crescimento global modesto de 3,2% neste ano, impactado por juros altos, desaceleração da China e tensões geopolíticas. No Brasil, a estimativa do PIB para 2025 foi recentemente revisada para 2,1%, conforme o Boletim Focus de 1º de julho, enquanto a inflação (IPCA) acumulada em 12 meses está em 5,32%, acima da meta de 3%.

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BRICS quer nova ordem global

A Cúpula do BRICS no Rio ocorre em um momento de transição no bloco, que agora conta com 11 membros, após o ingresso de países como Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Irã. O grupo tenta consolidar-se como alternativa ao G7 e defender uma nova ordem global, com ênfase na multipolaridade, soberania dos países e cooperação Sul-Sul.

No entanto, o grupo enfrenta divergências internas, como no caso da proposta de criação de uma moeda comum, impulsionada pela Rússia, mas vista com cautela por países como o Brasil.

Apesar disso, Lula ressaltou que o BRICS deve continuar a lutar por instituições multilaterais mais democráticas e representativas: “O BRICS é hoje um símbolo da resistência à velha ordem. Não queremos uma guerra, queremos uma nova governança”.

A fala de Lula na cúpula do BRICS expõe o dilema enfrentado por economias emergentes diante do ressurgimento de políticas protecionistas, como as tarifas comerciais dos EUA. Ao mesmo tempo, escancara a necessidade de reforma nas instituições que regulam o sistema internacional, do comércio à paz.

Com o comércio global ameaçado e a soberania dos países em risco, a urgência de uma nova arquitetura global parece mais evidente do que nunca e o Brasil, com Lula à frente, tenta se posicionar como voz ativa nesse debate.

Sobre o autor Rafaella Ranulfo

Jornalista especializada em assessoria e gestão da comunicação. Pós-graduanda em psicologia positiva, felicidade e bem-estar. Além de suas contribuções online, é autora de dois livros e criadora de conteúdo

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