A partir de 1º de agosto, o açaí exportado pelo Brasil para os Estados Unidos deverá ser afetado por uma tarifa de 50%. A medida foi confirmada pelo presidente americano, Donald Trump, durante visita à Europa, e faz parte de um pacote de sanções econômicas contra países com os quais, segundo ele, o relacionamento “não tem sido bom”.
Essa decisão gerou reação imediata entre produtores e exportadores brasileiros, especialmente os que atuam na região Norte, de onde sai a maior parte da polpa da fruta comercializada no exterior. Como o açaí vendido nos Estados Unidos é quase totalmente importado do Brasil, o novo imposto tende a aumentar consideravelmente os preços para o consumidor final.

Fruta amazônica movimenta milhões e sustenta comunidades
Antes restrito ao consumo regional, o açaí se transformou em um produto de alcance global. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam o crescimento expressivo das exportações, que passou de cerca de 150 mil toneladas do fruto em 2014, para se aproximar dos 2 milhões de toneladas em 2024.
Grande parte dessa produção vem dos estados do Amazonas, Pará e Amapá. No último, o setor é especialmente importante para a economia local. A produção estadual somou 22 mil toneladas em 2024, geradas em 1.760 hectares de área plantada. O valor movimentado chegou a R$ 65 milhões, com destaque para o extrativismo, que respondeu por aproximadamente 500 toneladas.
O açaí, além de alimento tradicional, é fonte de renda para milhares de famílias. A atividade extrativista emprega mão de obra local, reduz o êxodo rural e favorece práticas sustentáveis, especialmente em comunidades ribeirinhas e indígenas.
Exportações suspensas podem gerar prejuízos
A Amazonbai, maior cooperativa de extrativistas de açaí do Amapá, anunciou a suspensão de uma remessa de 1,5 tonelada destinada aos Estados Unidos. O cancelamento representa uma perda financeira estimada em R$ 480 mil. A organização reúne 151 extrativistas do arquipélago do Bailique e da região conhecida como “beira Amazonas”, no distrito de Macapá.
O produto era enviado em duas formas: como polpa congelada, vendida a US$ 5 o quilo (cerca de R$ 27,69), e em pó, que pode atingir o valor de US$ 60 o quilo (aproximadamente R$ 332,25). Com o aumento da tarifa, os custos de exportação sobem significativamente, tornando o produto menos competitivo no mercado internacional.
Desde o anúncio da medida, quatro envios ainda foram realizados. A próxima entrega, que seria feita em julho, foi interrompida. Diante desse cenário, a cooperativa busca novos parceiros comerciais em outros países para evitar mais prejuízos e garantir a continuidade das atividades.
A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrapa) emitiu uma nota condenando a taxação imposta pelos Estados Unidos. Na avaliação da entidade, alimentos não devem ser utilizados como instrumentos em disputas comerciais. O posicionamento reforça o temor de que a medida cause efeitos negativos tanto no Brasil quanto no exterior.
Entre os riscos apontados estão o aumento do desemprego entre pequenos produtores e trabalhadores do campo, o desabastecimento nos Estados Unidos e a elevação dos preços ao consumidor norte-americano. A associação também destacou que a mudança afeta principalmente regiões que dependem quase exclusivamente da venda de produtos agrícolas para o exterior.
Brasil lidera lista de países mais afetados
A nova política tarifária foi divulgada oficialmente em 9 de julho, por meio de uma carta de Trump endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Brasil encabeça a lista de países que sofrerão as sanções, com a taxa mais alta: 50%. Outros países como Mianmar, Laos, Camboja e Tailândia também foram incluídos, mas com percentuais menores, entre 36% e 40%.
Caso a tarifa entre em vigor sem alterações, o preço do açaí nos Estados Unidos deve subir expressivamente. Isso pode reduzir o consumo e, ao mesmo tempo, comprometer a principal fonte de renda de milhares de famílias que vivem da produção da fruta no Brasil.
Enquanto isso, exportadores se organizam para mitigar os impactos e manter os negócios ativos em meio a um cenário de incertezas.


