A rotina de trabalho de segunda a sexta, antes restrita a conversas informais entre colegas, virou material para milhões de visualizações nas redes sociais. A Geração Z tem usado o tempo livre no escritório para gravar vídeos no TikTok, transformando tarefas comuns, como reuniões e pausas para o almoço, em conteúdos virais.
Um dos formatos mais populares é o “o que eu comi no trabalho”. A criadora de conteúdo, Meredith Louise, publicou um vídeo exibindo ovos, sanduíche e maçã em sua mesa. Apesar da simplicidade, a postagem ultrapassou 918 mil visualizações.
Já o usuário Jake Zach acumulou quase 4 milhões de acessos ao mostrar desde água saborizada até uma mistura que apelidou de “Tigela de Morte, Impostos e Iogurte”.
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Entretenimento que gera receita
Para parte desses jovens, a prática vai além do entretenimento. De acordo com pesquisa realizada pela Shopify, empresa de comércio canadense, o valor médio de um vídeo patrocinado no TikTok é de US$ 2.700 (cerca de R$ 15 mil). No caso de criadores com grande audiência, classificados como macroinfluenciadores, o rendimento por postagem pode variar entre US$ 5.000 (R$ 27,8 mil) e US$ 10.000 (R$ 55,6 mil).
Essa possibilidade financeira explica a crescente adesão. A pesquisa Glassdoor-Harris 2024 apontou que 39% dos trabalhadores norte-americanos possuem um trabalho paralelo, índice que chega a 57% entre os jovens da Geração Z e 48% entre os da Geração Y.
Identidade profissional além do emprego formal
O hábito de compartilhar a vida no trabalho é também reflexo de mudanças culturais. Para especialistas, a Geração Z enxerga a identidade profissional de forma mais ampla, não restrita ao cargo formal. Criadores como Loewhaley, que começou a postar vídeos sobre a rotina em 2020, consolidaram carreiras digitais. Hoje, ela reúne 4 milhões de seguidores e já firmou parcerias com empresas como Canva e Microsoft.
Segundo Daniel Zhao, economista-chefe da Glassdoor, a motivação vai além do ganho imediato. “Quem conquista uma audiência pode usar essa visibilidade para abrir portas profissionais no futuro”, destacou em entrevista ao InfoMoney.
Salários e desinteresse pelo modelo tradicional
O movimento coincide com a frustração em relação ao mercado de trabalho formal. Com salários pressionados pela inflação e oportunidades de promoção mais escassas, muitos jovens adotaram o chamado “minimalismo de carreira”, priorizando equilíbrio e segurança em vez de busca incessante por cargos de liderança.
Termos como “deschefe consciente” têm sido usados para descrever trabalhadores que optam por não perseguir promoções tradicionais. A produção de conteúdo online aparece como alternativa para expressar criatividade e alcançar renda complementar.
Riscos para privacidade e compliance
Apesar do potencial de renda, a prática levanta preocupações. Escritórios de advocacia alertam para os riscos de registrar imagens em locais de trabalho sem autorização.
O Greenwood Law citou um caso envolvendo uma funcionária de uma loja da MAC Cosmetics, demitida após publicar um vídeo “venha trabalhar comigo” durante o expediente no aeroporto de Los Angeles (LAX). A gravação mostrava áreas restritas e processos de manuseio de dinheiro, o que foi interpretado como falha de segurança.
De acordo com o escritório, “a maioria dos funcionários está vinculada a contratos de confidencialidade e políticas internas”. Gravar processos internos ou colegas sem consentimento pode configurar violação contratual.
Políticas corporativas em revisão
Empresas têm revisado diretrizes sobre o uso de redes sociais para evitar exposição de informações sensíveis. Para especialistas em compliance, a questão não está em proibir o uso das plataformas, mas em estabelecer limites claros.
Segundo Zhao, da Glassdoor, a tendência é que gestores passem a reforçar treinamentos sobre privacidade. “Ambientes corporativos contêm dados estratégicos e interações que precisam ser preservadas”, avaliou.
O dilema entre expressão e controle
A popularização dos vídeos da Geração Z no ambiente de trabalho cria um dilema para as empresas. Por um lado, os conteúdos podem reforçar a imagem de transparência e humanizar as marcas. Por outro, a gravação não autorizada pode expor processos internos, gerar desconforto entre colegas e até impactar a segurança das operações.
O cenário aponta para uma necessidade de equilíbrio entre liberdade de expressão individual e a preservação dos interesses institucionais.