O segundo mandato de Donald Trump completou um ano nesta terça-feira, 20 de janeiro, em meio a um cenário de fortes disputas políticas, conflitos internacionais e mudanças profundas na forma como os Estados Unidos se relacionam com seus próprios cidadãos e com outros países.
Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o republicano adotou um estilo de governo marcado por confronto direto, decisões rápidas e pressão constante sobre aliados, adversários e instituições.
Ao longo dos primeiros 12 meses, Trump colocou em prática promessas centrais da campanha. O período foi marcado por endurecimento das regras de imigração, aumento de tarifas sobre produtos estrangeiros, ações militares fora do país e embates com universidades, imprensa e órgãos independentes.

Imigração e segurança no centro das decisões
A política de imigração foi o principal eixo do governo no segundo mandato. Ainda na campanha, Trump prometeu expulsar todos os imigrantes em situação irregular. Embora isso não tenha sido totalmente cumprido, as ações internas aumentaram de forma significativa.
Mais de 20 mil agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (Immigration and Customs Enforcement – ICE) passaram a atuar dentro do país, realizando operações em cidades e bairros, e não apenas nas fronteiras. Até dezembro de 2025, 605 mil pessoas foram deportadas, enquanto cerca de 1,9 milhão deixaram os Estados Unidos por conta própria, com medo de prisões.
Dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) indicam que as tentativas de entrada irregular caíram 89% em comparação com o último ano do governo Joe Biden. Entre brasileiros, a queda foi ainda maior, de 97%. O governo comemorou os números, mas as ações também geraram protestos e questionamentos judiciais, especialmente após a morte de uma cidadã americana baleada durante uma operação em Minnesota, estado dos EUA.
Além disso, o Departamento de Estado informou que 100 mil vistos de estrangeiros foram cancelados ao longo de 2025, reforçando o discurso de que imigração e segurança caminham juntas na agenda do governo.
Perdão aos invasores do Capitólio e clima de confronto
Logo no primeiro dia de governo, Trump concedeu perdão presidencial a cerca de 1.500 pessoas condenadas pela invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. O gesto foi visto como um recado direto ao Judiciário e à oposição, além de simbolizar o clima de confronto que marcou o início do mandato.
Trump assumiu o cargo como o primeiro presidente condenado criminalmente na história dos Estados Unidos e também como o mais velho a tomar posse. Ao longo do ano, manteve ataques frequentes a adversários políticos, juízes e promotores, além de seguir sem reconhecer oficialmente a derrota para Joe Biden na eleição de 2020.
O presidente também bateu um recorde ao assinar 225 ordens executivas, superando o número registrado por Franklin D. Roosevelt. Esses decretos atingiram diversas áreas, como imigração, meio ambiente, educação, segurança pública e políticas sociais.
Universidades, imprensa e Justiça sob pressão
Instituições tradicionais também se tornaram alvo do governo. Universidades como Harvard e Columbia sofreram cortes de verbas federais e investigações, sob alegações que incluíam protestos estudantis e regras de admissão de alunos estrangeiros.
A imprensa enfrentou processos judiciais bilionários movidos por Trump e aliados, motivados por reportagens críticas, inclusive aquelas que abordaram sua relação com Jeffrey Epstein. Em março, o presidente divulgou um comunicado ameaçando punir advogados e escritórios envolvidos em ações que ele considerasse sem fundamento contra sua gestão.
Economia, tarifas e atritos com outros países
Na economia, Trump voltou a usar tarifas como ferramenta de pressão. Em abril de 2025, anunciou aumentos de impostos sobre produtos importados de mais de 180 países, com algumas taxas chegando a 50%. O objetivo declarado era proteger empresas americanas e forçar negociações comerciais.
O Brasil inicialmente recebeu uma tarifa menor, de 10%, mas meses depois passou a enfrentar uma taxa adicional de 40%. Trump justificou a medida citando o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Após meses de tensão, os governos dos dois países retomaram o diálogo. No fim de outubro, Trump se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, em novembro, os Estados Unidos anunciaram a retirada gradual das tarifas sobre produtos brasileiros como carne, café e aço.
Apesar dos recuos pontuais, as tarifas elevaram custos, afetaram cadeias globais de produção e aumentaram a desconfiança de parceiros históricos dos Estados Unidos.
Relações exteriores: conflitos e tentativas de mediação
No cenário internacional, Trump buscou se apresentar como mediador de conflitos, mas suas ações frequentemente aumentaram a tensão. O apoio a Israel se intensificou, com cinco encontros com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ao longo de 2025.
Em julho, os Estados Unidos atacaram instalações nucleares do Irã, encerrando um conflito de 12 dias entre Teerã e Tel Aviv que deixou quase 1.000 mortos. Meses depois, Trump anunciou um cessar-fogo e passou a defender a criação de um conselho de paz para Gaza, após ter sugerido anteriormente transformar a região em um grande projeto turístico.
A relação com a Rússia também foi instável. Trump alternou elogios e críticas ao presidente Vladimir Putin e chegou a chamá-lo de “louco” devido à guerra na Ucrânia. Em agosto, os dois se encontraram no Alasca para discutir possíveis caminhos para a paz. Trump passou a responsabilizar o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky por dificuldades nas negociações, após um encontro tenso na Casa Branca.
América Latina, Venezuela e ações militares
A América Latina esteve entre as regiões mais afetadas pela política externa do governo. Trump reforçou o discurso de combate ao narcotráfico e retomou uma postura de forte intervenção na região.
Em agosto, ordenou uma ofensiva para cercar a Venezuela. Meses depois, uma operação em território venezuelano terminou com a captura do presidente Nicolás Maduro, provocando reações internacionais e críticas sobre o respeito às regras internacionais.
Entre setembro e dezembro, forças americanas também atacaram embarcações suspeitas de tráfico no Caribe e no Pacífico. As operações deixaram mais de 100 mortos, levando a ONU a classificar as ações como possíveis execuções fora do devido processo legal.
Pressão sobre a Europa e a Groenlândia
Outro episódio que chamou atenção foi a pressão dos Estados Unidos sobre a Dinamarca em relação à Groenlândia. Trump afirmou que o território é estratégico para a segurança americana e não descartou o uso de força. A ameaça de tarifas contra países europeus contrários à ideia gerou tensão dentro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e expôs divisões entre aliados históricos.
Saúde, ciência e cortes de gastos
Na área da saúde, a nomeação de Robert Kennedy Jr. para comandar o setor marcou uma mudança de rumo. O governo retirou seis vacinas do calendário infantil recomendado, o que levou médicos a alertarem para o risco de retorno de doenças antes controladas.
Outro impacto global foi o fechamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), responsável por programas de ajuda humanitária. A decisão partiu do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), liderado por Elon Musk, e resultou em cortes significativos em projetos sociais e internacionais.


