Desafios para manter o sistema de pé
Com o aumento da demanda, algumas cidades tiveram de reduzir a oferta de ônibus para conter os custos. Caucaia cortou 23% da frota, e Assis (SP) diminuiu pela metade. Em São Luís (MA), o programa Expresso do Trabalhador, que oferecia tarifa zero a comerciários e moradores de bairros centrais, foi suspenso em 2023 após aumento expressivo da demanda e falta de recursos. A prefeitura planeja reestruturar o projeto.
Outro problema apontado pela NTU é a falta de dados. Muitas cidades não registram informações básicas sobre número de passageiros, quilometragem ou custo por viagem. Sem monitoramento, é difícil avaliar a eficiência do sistema e planejar melhorias.
Capitais ainda testam modelos parciais
Nas capitais, a tarifa zero ainda caminha devagar. Segundo a NTU, nove capitais oferecem algum tipo de gratuidade, mas sempre de forma parcial. Em São Paulo, o benefício começou em dezembro de 2023, válido apenas aos domingos, com custo estimado em R$ 283 milhões por ano.
Brasília ampliou a medida em março de 2025, incluindo ônibus e metrô em domingos e feriados, com gasto anual previsto de R$ 30 milhões. Outras capitais, como Belém, Cuiabá, Palmas e Maceió, seguem o mesmo modelo. Já Curitiba e Belo Horizonte oferecem gratuidade restrita a grupos específicos, como pessoas desempregadas ou moradores de favelas e vilas.
A dificuldade é principalmente financeira. Cidades grandes transportam milhões de passageiros por dia, o que dificulta a aplicação da tarifa zero universal sem uma nova estrutura de financiamento.
O desafio das grandes cidades
Levar a tarifa zero às metrópoles exigirá novas fontes de receita. Entre as ideias discutidas estão fundos metropolitanos de transporte, revisão do vale-transporte e contribuições de empresas que se beneficiam da mobilidade urbana. Modelos semelhantes existem na França, onde o Versement Mobilité, criado em 1971, financia parte do transporte público com contribuições de empregadores.
A NTU destaca que o transporte gratuito amplia o acesso a oportunidades, melhora a qualidade de vida e reduz desigualdades. Mas alerta que, sem novas formas de custeio, a expansão pode se tornar insustentável. “Transporte público é como água: essencial, mas ninguém carrega o custo sozinho”, resume um dos estudos citados no relatório.
Ao pedir uma radiografia detalhada do setor, o governo federal quer entender onde o modelo tem funcionado, como é financiado e o que pode ser replicado. A expectativa é que o diagnóstico sirva de base para novas políticas nacionais de mobilidade.
Com o Brasil liderando o ranking mundial de cidades com tarifa zero e dezenas de experiências bem-sucedidas em andamento, a pauta se tornou uma discussão concreta sobre como garantir o direito de ir e vir e quem deve pagar por isso.


