Mudança no texto para evitar volta à Câmara
Um dos pontos mais comentados da votação foi a manobra feita pelo relator no Senado, senador Esperidião Amin (PP-SC). Ele alterou o conteúdo do projeto para evitar que o texto precisasse voltar para a Câmara dos Deputados, o que atrasaria a tramitação.
A mudança restringiu os novos benefícios apenas aos crimes contra o Estado Democrático de Direito. Essa alteração foi importante porque, na versão aprovada pelos deputados, havia brechas que poderiam beneficiar condenados por outros crimes graves, como exploração sexual, favorecimento da prostituição, ameaças durante processos judiciais e até obstrução de investigações contra o crime organizado.
A sugestão de mudança partiu do senador Sérgio Moro (União-PR) e foi aceita pelo relator. Amin e Moro afirmaram que, sem essa correção, o projeto poderia gerar revolta ainda maior na sociedade e abrir espaço para injustiças.
Crime mais grave prevalece sobre soma de penas
O texto aprovado também muda como a Justiça calcula a pena quando uma pessoa é condenada por mais de um crime relacionado à tentativa de golpe. Antes, as penas eram somadas. Agora, se houver condenação ao mesmo tempo por tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito, vai prevalecer apenas a pena mais grave, e não mais a soma das duas.
Essa mudança reduz o total de anos de prisão e é um dos pontos que mais favorecem réus envolvidos nos atos golpistas.
Pressão contra a anistia e protestos nas ruas
O PL da Dosimetria surgiu como uma alternativa à proposta de anistia, que daria perdão total aos condenados do 8 de Janeiro. A ideia da anistia enfrentou forte resistência de juristas, movimentos sociais e parte da população, que enxergam a medida como um estímulo à impunidade.
No último domingo, dia 14, manifestantes foram às ruas em todas as capitais do país para protestar contra a anistia e também contra o projeto de redução de penas. Os atos tiveram tamanhos diferentes, mas mostraram que o tema segue dividindo a sociedade.
Segundo lideranças do Congresso, a revisão das penas foi vista como uma forma de aliviar a pressão política sem conceder um perdão completo. O ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), afirmou que a discussão sobre ajustar as penas acontece desde o início do ano. Para ele, a mudança seria necessária “para se evitar uma anistia”.
Conflitos e acordos políticos
A aprovação do projeto também escancarou conflitos dentro do Congresso e na base do governo. Parlamentares da oposição e até aliados do Planalto acusaram o governo de mudar de posição nos últimos dias e evitar um confronto direto sobre o tema.
O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que houve um acordo envolvendo a liderança do governo no Senado. Segundo ele, o líder governista Jaques Wagner (PT-BA) teria aceitado que o PL da Dosimetria fosse colocado em votação em troca do avanço de outro projeto, que trata do corte de benefícios tributários.
Esse tipo de negociação é comum no Congresso, mas gerou críticas porque envolve um tema sensível, que mexe com punições a crimes contra a democracia.
O que acontece agora?
Com a aprovação no Senado, o projeto segue para a mesa do presidente Lula. Ele pode sancionar a lei, vetar alguns trechos ou vetar o texto inteiro. Caso haja veto, o Congresso ainda pode analisar e decidir se mantém ou derruba a decisão do presidente.
A aprovação do PL da Dosimetria mostra que o Congresso optou por um caminho intermediário: não concedeu anistia total, mas reduziu penas e facilitou a progressão de regime. O debate agora se concentra em saber se essa decisão fortalece a Justiça ou se abre espaço para a sensação de impunidade.


