O relatório Worklife Trends Report 2026, divulgado pela plataforma de recrutamento Glassdoor e baseado em mais de 7 milhões de avaliações, salários e entrevistas de trabalhadores dos Estados Unidos, revelou mudanças importantes no mercado de trabalho e na dinâmica entre profissionais e lideranças. As menções a desalinhamento nas avaliações aumentaram 149% entre 2024 e 2025, enquanto referências a desconexão avançaram 24% e desconfiança subiram 26%.
O levantamento indica que a relação entre equipes e gestores entrou em uma fase de maior tensão após seis anos marcados por pandemia, adaptações ao trabalho remoto e ajustes organizacionais. No auge da crise sanitária, líderes eram percebidos como mais transparentes e vulneráveis. Com a normalização das rotinas, parte desse comportamento foi substituída por discursos corporativos tradicionais, criando um distanciamento percebido pelos profissionais.
Em entrevista a Forbes, Daniel Zhao, economista-chefe do Glassdoor, revelou que a confiança na liderança chegou ao limite em um contexto em que trabalhadores observam com atenção decisões relacionadas a demissões, retorno ao escritório e adoção de tecnologias como inteligência artificial.
Leia também: Desemprego no Brasil atinge menor nível da história em 11 estados e no DF, aponta IBGE

Cortes menores e frequentes substituem grandes demissões
O estudo mostra que as chamadas demissões contínuas se tornaram mais comuns. Em 2015, cortes envolvendo menos de 50 pessoas representavam 38% dos desligamentos. Em 2025, esse percentual subiu para 51%, o que indica uma mudança estrutural na forma de reduzir despesas trabalhistas.
Esse tipo de ajuste não costuma gerar grande repercussão pública, mas cria um clima persistente de incerteza interna. Menções a insegurança no emprego já estavam mais altas no fim de 2025 em comparação ao período pré-pandemia, ampliando sensações de ansiedade e desgaste emocional.
Empresas buscam administrar custos de maneira discreta, mas os impactos psicológicos têm sido significativos. Entre esses efeitos estão burnout, queda de engajamento e diminuição da confiança institucional, o que pode influenciar o mercado em 2026.
Crescimento profissional esbarra em desafios do trabalho remoto
Outro ponto observado pelo estudo é a relação entre modelo híbrido ou remoto e crescimento na carreira. As avaliações de oportunidades profissionais no Glassdoor caíram de 4,1 em 2020 para 3,5 em 2025 entre trabalhadores que mencionaram trabalho remoto ou híbrido em seus depoimentos.
Apesar da retomada do trabalho presencial em muitas empresas, o volume de dias trabalhados em casa praticamente não se alterou. O estudo aponta que a queda nas avaliações gerais é maior entre profissionais que registraram em seus relatos o uso desses modelos de trabalho, indicando que a percepção de que “estar longe reduz visibilidade” ganhou mais força.
Para muitos trabalhadores, o maior desafio será equilibrar flexibilidade com visibilidade. Essa troca pode influenciar decisões de carreira, especialmente em organizações que têm priorizado colaboradores que frequentam o escritório para promoções.
Inteligência artificial preocupa, mas ainda não causa grande impacto
O relatório do Glassdoor também analisou o efeito da inteligência artificial no mercado de trabalho. Embora exista preocupação entre profissionais em áreas mais expostas, a insatisfação caiu apenas levemente desde 2022. Algumas categorias, como tradutores e engenheiros de software, registraram quedas mais significativas, mas representam uma parcela pequena da força de trabalho total analisada.
Segundo o estudo, a maior parte das empresas ainda está em fase experimental de uso da IA e não conseguiu integrá-la totalmente ao cotidiano de trabalho. A expectativa apontada pelo relatório é de que 2026 apresente transformações graduais, e não rupturas imediatas, mantendo a IA como uma tendência observada, mas de efeitos iniciais limitados.
Um mercado em transição e com expectativas redefinidas
As tendências identificadas pelo Glassdoor indicam que o mercado de trabalho de 2026 será influenciado pela combinação entre insegurança econômica, mudanças tecnológicas, redefinição de lideranças e novos formatos de trabalho. A distância crescente entre profissionais e gestores, aliada a cortes menores e contínuos, sugere um cenário de atenção redobrada à confiança interna.
A queda na percepção de oportunidades entre trabalhadores remotos ou híbridos reforça que as escolhas profissionais devem envolver não apenas benefícios de flexibilidade, mas também possíveis impactos na progressão na carreira. Já a inteligência artificial aparece como um ponto de incerteza, mas que, por enquanto, ainda não provocou mudanças estruturais amplas.
Essas tendências compõem o panorama identificado pelo Worklife Trends Report 2026, consolidando informações que podem influenciar decisões de empresas e trabalhadores ao longo do próximo ano.