O governo federal está finalizando um plano de contingência para atenuar os impactos das tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, que entraram em vigor no início de agosto. O pacote de medidas será anunciado nos próximos dias e está sendo articulado entre os ministérios da Fazenda, Indústria, Comércio e Serviços, Relações Exteriores e Casa Civil.
De acordo com fontes ligadas à equipe econômica, o conjunto de ações se apoia em quatro eixos principais: linhas de crédito, compras públicas, preservação de empregos — com possível reativação do programa Seguro-Emprego, adotado durante a pandemia — e diplomacia econômica, envolvendo diálogo bilateral com Washington, diversificação de mercados e alternativas comerciais.
Leia também: Centenários, idosos longevos ou superidosos?

Quatro frentes estratégicas do plano emergencial
O núcleo do pacote prevê o direcionamento de R$ 30 bilhões do Fundo de Garantia à Exportação (FGE) para financiar linhas de crédito a juros reduzidos, operadas pelo BNDES. O acesso a esses recursos será condicionado à manutenção dos empregos nas empresas contempladas. Segundo dados do governo, o FGE possui atualmente superávit de R$ 48 bilhões — em março, o saldo era de R$ 53 bilhões —, o que permitiria a implementação do programa sem necessidade de aporte extra do Tesouro Nacional.
Outro ponto do plano destina R$ 10 bilhões para a renegociação de dívidas no setor rural, especialmente voltado a pecuaristas, cafeicultores e fruticultores. Os recursos serão liberados em duas etapas: metade ainda em 2025 e o restante em 2026, também por meio do BNDES.
Entre os setores mais afetados pelas sobretaxas, o calçadista é um dos que mais preocupam o governo. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) afirma que 80% das empresas exportadoras já registram prejuízos, como paralisação de negociações e queda no faturamento. A entidade estima que o impacto pode levar à perda de até 20 mil empregos, diretos e indiretos.
Leia também: China adia decisão e Brasil ganha fôlego na exportação de carne
Paralelamente, há tratativas para ampliar a lista de produtos isentos das tarifas, com destaque para o café e a manga, considerados estratégicos. Além disso, o governo prevê acionar o mecanismo de compras públicas para sustentar a produção local enquanto durar o impacto das medidas impostas pelos EUA.
No campo diplomático, o vice-presidente Geraldo Alckmin vem conduzindo reuniões com a embaixada norte-americana e articulando a defesa do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC). A estratégia inclui simultaneamente tentar flexibilizar as tarifas e buscar mercados alternativos para reduzir a dependência das exportações brasileiras em relação aos Estados Unidos.
Especialistas ouvidos pela Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi) avaliam que a adoção de medidas emergenciais é necessária para evitar um choque de emprego e renda, mas alertam que a dependência prolongada desse tipo de apoio pode encarecer os custos de produção e, em última instância, impactar os preços para o consumidor final.


